Transborda. Histórias, bordado e SoulCollage® com mulheres em vulnerabilidade social

Fabiana Geraldi [*]

Isabela da Silveira [**]

Luciana da Silveira [***]


Resumen

El objetivo principal de este artículo es presentar un trabajo muy potente que integra las narrativas de la tradición oral, el bordado y el método del collage creado por la estadounidense Seena Frost, SoulCollage®. Este trabajo es realizado por el Proyecto Social Transborda, y está dirigido a mujeres que viven en comunidades de Río de Janeiro. Su propósito es fortalecer la experiencia de pertenencia social de estas mujeres, a través de un profundo trabajo creativo de integración y refuerzo de sus identidades.

Resumo

O presente artigo tem como principal objetivo apresentar um trabalho muito potente que integra as narrativas de tradição oral, o bordado e o método de colagem criado pela americana Seena Frost, o SoulCollage®. Este trabalho é feito pelo Projeto Social Transborda, e é voltado para mulheres moradoras de comunidades no Rio de Janeiro. Seu propósito é fortalecer a experiência de pertencimento social dessas mulheres, através de um trabalho criativo profundo de integração e reforço de suas identidades.

Palavras-chave: arte, mulheres, bordado, SoulCollage®, potência criativa.


 

O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos
A memória bravia lança o leme:
Recordar é preciso.

O movimento vaivém nas águas-lembranças
dos meus marejados olhos transborda-me a vida,
salgando-me o rosto e o gosto.
Sou eternamente náufraga,
mas os fundos oceanos não me amedrontam
e nem me imobilizam.

Uma paixão profunda é a bóia que me emerge.
Sei que o mistério subsiste além das águas.

Conceição Evaristo

História

Transborda é um projeto social voltado para mulheres moradoras de comunidades do Rio de Janeiro. Seu principal objetivo é fortalecer a experiência de pertencimento social dessas mulheres, através de um trabalho profundo de integração e reforço de suas identidades.

Esse trabalho foi criado a partir de uma demanda do Projeto Social Eu Sou Arte, um projeto de arte-educação voltado para crianças e adolescentes de comunidades, cujo principal objetivo é fortalecer a identidade através de propostas artísticas. A necessidade de tornar as famílias mais próximas e envolvidas com o processo das crianças fez com que procurássemos criar iniciativas de sensibilização junto aos responsáveis. Optamos por trabalhar com as mulheres envolvidas na educação desses alunos (mães, avós, tias, madrastas, irmãs mais velhas). O resultado do trabalho foi tão positivo que essa iniciativa inicial foi se transformando em um projeto social independente, com conceito e objetivos construídos ao longo do processo. Uma costura a muitas mãos.

Quem são essas mulheres

Às vezes o rasgado pela dor vira retalho.
Recomenda-se nesses casos costurá-lo como uma
linha chamada recomeço. É o suficiente.”

Cora Coralina

Os núcleos familiares dentro das comunidades são, na maioria das vezes, chefiados por mulheres. Muitas vezes elas fazem jornadas duplas ou triplas e precisam arcar sozinhas com a responsabilidade econômica e emocional de suas famílias. Essas mulheres são os pilares de sustentação do lar, e por isso, frequentemente, acabam doentes e distantes de sua sensibilidade.

A vida dentro das comunidades cariocas é muito violenta e solitária. Para manter suas famílias longe da violência e do tráfico de drogas, é preciso muita disciplina e autoridade. Essa necessidade de controle externo acarreta em um endurecimento psíquico, um distanciamento de sua verdadeira identidade. Elas perdem contato com sua sabedoria interna, perdem a conexão com suas histórias e com suas raízes. Há um embotamento e um desenraizamento, como se vagassem pela vida como folhas ao vento, sombrias e distantes de quem realmente são.

Essas mulheres são quase sempre originárias de outras regiões do Brasil, muitas vindas da parte norte e nordeste do país, que chegam ao Rio de Janeiro em busca de oportunidade de trabalho. Elas deixam para trás sua família de origem, crenças e tradições, a juventude e a inocência, algumas deixam até filhos, e desembarcam na cidade grande com muito pouco ou quase nada.

Transborda é um projeto social voltado para mulheres moradoras de comunidades do Rio de Janeiro. Seu principal objetivo é fortalecer a experiência de pertencimento social dessas mulheres, através de um trabalho profundo de integração e reforço de suas identidades.

Muitas dessas mulheres, ainda muito jovens, vêem-se lançadas à mudança radical de vida como a única chance de sobreviver à pobreza e à miséria do local onde nasceram. Nessas regiões as oportunidades de trabalho são escassas e as de estudo, quase nulas. Uma porcentagem grande da população não sabe ler nem escrever.

A vida que constroem na cidade grande é muito restrita. Vivem confinadas em suas comunidades, saindo apenas para trabalhar. Em geral não circulam pela cidade e não se sentem autorizadas a isso. Vivem à margem da sociedade.

O conceito do projeto

Arte é restauração: a idéia é reparar os danos que são
infligidos na vida, fazer algo que está fragmentado – que é
o que o medo e a ansiedade fazem a uma pessoa
– em algo inteiro.”

Louise Bourgeois

O objetivo principal do Transborda é avivar o sentimento mais profundo de pertencimento dessas mulheres. O trabalho nos ateliês é feito com o objetivo de reconectá-las às suas raízes. Um indivíduo desenraizado de suas origens torna-se um indivíduo fragmentado. Com isso, fortalecemos suas identidades, construímos vínculos, acessamos suas sensibilidades e suas forças. Facilitamos um processo de inteireza. O nosso instrumento principal é a arte, em toda a sua abrangência. A arte é vivenciada através de três pilares:

  • Narrativas com linguagem poética.
  • Propostas artísticas através do bordado e do SoulCollage® (método de colagem da americana Seena Frost).
  • Inserção cultural – Transbordamentos.

Pilares

Toda dor pode ser suportada se
sobre ela puder ser contada uma história.”

Hannah Arendt

O primeiro pilar corresponde às narrativas com linguagem poética. Selecionamos histórias que convidam ao mergulho no universo da imaginação – um portal para o mundo subjetivo. Fazem parte da nossa seleção as histórias e os contos de tradição oral, mitos e contos de fadas. Sem conotação moralista, essas narrativas permitem que haja um envolvimento com o enredo sem qualquer tipo de julgamento. As mulheres se identificam com tramas e personagens, puxando o fio de suas memórias adormecidas. Através das histórias elas vão ao encontro de um lugar mais profundo – lugar comum a todas elas, chamado por Jung de inconsciente coletivo – fazendo com que se desloquem da concretude e da dualidade da vida. Elas deparam-se com histórias ancestrais que não foram vividas por elas, mas que fazem parte de cada uma. Elas acessam suas lembranças através de cores, cheiros, lugares, sensações. Elas reconectam-se às suas raízes.

O segundo pilar é constituído pelas propostas artísticas, que acontecem dentro do ateliê. Sensibilizadas pelas histórias, o bordado entra como um poderoso recurso, para que cada mulher possa desenvolver seu processo criativo. Sendo assim, é importante oferecê-lo de modo bem livre e simples, deixando a técnica em segundo plano. Aos poucos elas vão percebendo que cada uma tem a sua maneira própria de imprimir o ponto e começam a se reconhecer nos bordados, como os artistas se reconhecem pelos seus traços. Neste processo elas se descobrem como mulheres criativas e potentes, capazes de tecer e destecer os seus desejos, entrando em contato com elas mesmas. Olhando para si e nutrindo-se através da arte, passam a olhar para as outras, se identificam como um grupo, encontram força na troca e trazem conteúdos internos antes esquecidos. Além disso o bordado é uma linguagem que perpassa gerações. Elas lembram de alguma mulher da família que bordava. E nessas costuras de memórias elas vão fortalecendo o contato com elas mesmas, com sua ancestralidade, com as histórias contadas pelas facilitadoras, com o coletivo que se forma nos ateliês.

… Pacientemente, como uma Penélope contemporânea ou, quem sabe, como uma enorme aranha, vou cruzando os fios de uma existência que se torna visível a partir das obras produzidas. Este tecer, que mais do que simbolicamente representa uma maneira real de se colocar no mundo, procura também trazer à tona vestígios de momentos passados. Como as aulas de costura e artesanato tidas na infância e que, neste momento, passam a ter um sentido totalmente diverso desvelando um universo escondido do mais profundo de mim.”

Rosana Paulino

Outro recurso artístico importante nesse segundo pilar é a experiência com o SoulCollage®. Neste método de auto-conhecimento que utiliza a colagem como ferramenta artística, criado pela americana Seena Frost (www.soulcollage.com), cartões de tamanho específico são criados a partir de imagens de revista. Este material facilita o processo criativo dessas mulheres, pois elas já começam com uma referência, um ponto de partida que de alguma forma as afeta. A expressão através de desenhos ou pinturas fica muito restrita pela pouca ou nenhuma intimidade com os materiais. Muitas nunca pegaram em um lápis de cor ou pincel. Além disso, uma folha branca pode gerar muita angústia. Por terem um vocabulário imagético limitado, elas entram com inocência e espontaneidade no processo, ingredientes essenciais para o mergulho criativo. O fácil distanciamento do intelecto faz com que exista uma entrega legitima, que não passa pelo racional e permite que a mágica do método aconteça facilmente. Quando o cartão é criado, elas são convidadas a dar voz ao cartão, ou seja, elas deixam a imagem principal (o Neter, a essencia da imagem) falar, através de uma frase que começa assim: Eu sou alguém que… Este processo facilita uma escuta interna, promovendo uma comunicação mais livre, da ordem da imaginação. Os diversos personagens que vão surgindo nos cartões ganham vida através dessa fala ludica. Elas são convidadas ao faz de conta. Observamos que ao longo do processo elas vão ganhando intimidade com o método como um todo. A colagem vai ficando menos dura, e elas vão conseguindo dar às imagens um tratamento mais preciso, integrando uma imagem na outra, um recorte mais apurado, mais fluido, que acaba influenciando também na fluidez de seus diálogos internos e com o mundo.

Colagem é uma metáfora para qualquer descoberta, recolhimento e entrelaço de energias poderosas já conhecidas e presentes no universo. Uma criação nova e pessoal pode ser feita por um sempre existente e divino caos de imagens a nossa volta. Apenas escolha, reúna, nomeie, e então habite seus cartões do SoulCollage®.”

Seena Frost (Tradução livre)

Ao se relacionarem com seus cartões de SoulCollage® elas conseguem fazer um mergulho profundo e verdadeiro. No processo de criação dessas colagens, elas entram em contato com diferentes partes delas mesmas, descobrem que são muito mais do que pensavam ser. Como olhar um caleidoscópio. A ampliação do olhar sobre si e o reconhecimento da multiplicidade psiquica são terapêuticos e transfomadores.

«Ser livre significa compreender, no sentindo mais lúdico e amplo que a palavra pode ter […] A vivência desse entendimento é a mais plena e mais profunda interiorização a que o indivíduo possa chegar. Ser livre é ocupar o seu espaço na vida.»

Fayga Ostrower

O terceiro pilar é a inserção cultural, fundamental para reforçar e ampliar o olhar dessas mulheres, trazendo a experiência de pertencimento social, cultural e artístico. Esse movimento começa dentro do ateliê, quando apresentamos o trabalho de diferentes artistas, e se intensifica quando transbordamos os limites da comunidade e as levamos para visitar exposições. Com o deslocamento físico, há também um deslocamento emocional. Limites são transpostos, internos e externos. Em contato com diferentes linguagens artísticas, elas passam a se reconhecer como produtoras de arte. Autorizadas a criar, fortalecem a autoestima e se vêem capazes. Sentem-se autorizadas a explorar outros lugares – sociais, físicos, emocionais, profissionais – e expandem as suas formas de atuação no mundo.

Os núcleos familiares dentro das comunidades são, na maioria das vezes, chefiados por mulheres. Muitas vezes elas fazem jornadas duplas ou triplas e precisam arcar sozinhas com a responsabilidade econômica e emocional de suas famílias.

Em junho de 2019 fizemos nossa primeira incursão cultural. Visitamos a exposição “Rosana Paulino: A Costura da Memória”, no MAR, Museu de Arte do Rio. Foi uma experiência muito impactante. Era um grupo de 9 mulheres da comunidade da Tijuquinha, apenas duas delas já tinham visitado uma exposição antes. Todas ficaram maravilhadas diante do museu, apesar de um pouco tímidas. Entrando na exposição ficaram totalmente afetadas e entregues desde o contato com as primeiras obras. Aos poucos foram se envolvendo ainda mais. Como se estivessem sendo tocadas em camadas profundas, iam gradativamente deixando escapar memórias e reflexões. Um verdadeiro mergulho poético. Lindo de se ver. Houve uma forte identificação, como se as obras falassem delas próprias, mulheres à margem da sociedade. Foi emocionante para a equipe perceber que assuntos marginais e dolorosos, abordados poeticamente pela artista, tomavam um lugar de valor pra elas. Elas se sensibilizaram e enxergaram beleza na estética pautada na autenticidade do conteúdo. Assim sentiram-se autorizadas a olharem para as suas próprias origens e entenderem que a arte tem a linda função de expressar sentimentos.

De volta ao ateliê, a experiência da exposição ficou reverberando em muitos encontros, foi combustível para muitas reflexões, costura para muitas memórias e inspiração para produções artísticas.

Além disso, percebemos a importância da própria circulação geográfica. Muitas nunca haviam utilizado o metrô. Nunca haviam ido ao centro do Rio. Todo o processo de deslocamento fez parte do trabalho de pertencimento. Elas se viram orgulhosas de pertencerem à cidade, de circularem livremente pelas ruas, de serem bem tratadas nos espaços culturais. Uma arte-educadora do museu nos acompanhou na visita à exposição, dando toda atenção, conversando, tirando dúvidas. Elas se reconheceram como cidadãs e artistas.

Acreditar no mundo é o que mais nos falta; nós perdemos completamente o mundo, nos desapossaram dele. Acreditar no mundo significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmo pequenos, que escapem ao controle, ou engendrar novos espaços-tempos, mesmo de superfície ou volumes reduzidos. […] É ao nível de cada tentativa que se avalia a capacidade de resistência ou, ao contrário, a submissão a um controle. Necessita-se ao mesmo tempo de criação e povo.

Gilles Deleuze

Esses três pilares são a sustentação do Transborda. São as raízes que elas precisam para voar, para transpor limites. Limites internos e externos. Ampliar possibilidades, reforçar a identidade através da potência criativa. Aumentar a autoestima através da experiência artística, através das trocas, das escutas poéticas. Tudo isso trazendo a elas o sentimento de pertencimento. Elas percebem que pertencem a um corpo, a uma psique. E que essa psique e esse corpo não estão à parte, marginalizados. Eles pertencem a uma ancestralidade, a uma história, a uma memória individual e coletiva. E elas percebem que estão inseridas em uma sociedade, em uma cultura, em uma cidade, em um país. E que tem o direito de ocupar espaços, de conquistar territórios.

A arte atravessa, fortalece, expande. E com a arte segue a artista. Linhas que vem e vão, imagens que se integram como em uma grande dança cósmica.

Seguimos o texto com recortes de pequenas experiências que aconteceram nos ateliês e fora deles. Experiências coletivas e individuais, que vão sendo costuradas no grupo, mas que se manifestam na singularidade de cada mulher.

Transbordamentos…

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
E construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras
e faz doces.
Recomeça.

Cora Coralina

Georgina

Georgina é uma mulher negra de aproximadamente 65 anos moradora de uma das maiores e mais violentas favelas do Rio de Janeiro, o Complexo da Maré. Ela trabalhou desde muito jovem como servente em uma escola pública. Entrou no grupo com um quadro de depressão agravado pela chegada de sua aposentadoria compulsória.

Ela procurou o Projeto Transborda para se ocupar, e também para estar com pessoas com quem pudesse ter algum tipo de troca. Encontrou no bordado um hobby. Quando em um segundo momento oferecemos o SoulCollage®, ela teve muita resistência, como se aquela atividade a estivesse afastando do seu real motivo de estar ali.

O objetivo principal do Transborda é avivar o sentimento mais profundo de pertencimento dessas mulheres. O trabalho nos ateliês é feito com o objetivo de reconectá-las às suas raízes. Um indivíduo desenraizado de suas origens torna-se um indivíduo fragmentado.

Durante a produção de um de seus primeiros cartões, Georgina selecionou a imagem principal (néter) mas teve dificuldade de continuar ao processo. Convidada a dar voz ao néter, falou como se estivesse diante de uma figura feminina. Quando percebeu que se tratava de um homem, chegou a desistir, quis trocar de imagem, mas foi encorajada a seguir com aquela. A partir daí, saiu em busca de um fundo para o seu néter e finalizou o seu cartão. Ao dar voz ao cartão, Georgina falou de “alguém que está na praia, em uma paisagem ampla e livre, vendo os pássaros voarem e refletindo sobre paz, calma e tranquilidade daqui por diante”. A figura principal deste cartão da Georgina é o Nelson Mandela. Mesmo ele sendo uma personalidade mundialmente notória, ela não tinha a menor idéia da existência dele.

 

Na sua vida pessoal, Georgina tinha acabado de se aposentar e estava naquele momento pensando como seria o futuro. Coletivamente, ela estava vivendo tempos duros de liberdade cerceada, violência e insegurança promovidas pelo estado, através de operações policiais na comunidade em que vive.

Lindo o processo de mergulho no inconsciente coletivo que o método promove. Georgina se conectou da forma mais inocente a uma figura arquetípica da liberdade.

Rosimar

Rosimar tem entre 30 e 40 anos, é casada e tem dois filhos. Nasceu em um pequeno vilarejo no interior do Brasil. Ainda muito jovem intuiu que sua única chance de não ter um futuro tão limitado quanto o das mulheres ao seu redor, seria mudando para a cidade grande.

Rosimar notava mudanças no comportamento do filho desde que ele entrou para o Projeto Eu Sou Arte. Ele estava sempre feliz e melhorou suas relações na escola. Mas ela não entendia a produção artística dele, achava esquisita. De certo modo até a rejeitava, a ponto de interferir negativamente com seus comentários. As professoras do projeto perceberam sua dificuldade em lidar com o trabalho de seu filho – ela era muito rígida e concreta – e a convidaram para participar do grupo de mulheres. Rosimar resistiu. Até que um dia viu outra mãe bordando e se interessou em conseguir fazer uma coisa tão bonita. Decidiu entrar pra turma de bordado.

Determinada e objetiva, ela logo começou a bordar profissionalmente. Através do bordado e das histórias, foi entrando em contato com seu lado mais sensível, e percebendo que o grupo lhe oferecia mais do que apenas aprender a bordar. Gradualmente foi sentindo que havia acolhimento e troca com as colegas e que saía dos encontros com energia renovada. Passou a valorizar o coletivo.

Em contato com o SoulCollage®, começou a contar passagens da sua infância e adolescência, da chegada no Rio vinda do Maranhão sozinha aos 16 anos para começar a trabalhar. Ao ouvir a própria história, se surpreendeu com sua coragem e também com memórias de uma infância leve e doce, passou a se reconhecer como uma pessoa forte. Como uma observadora de si própria, aos poucos foi se vendo por um novo ângulo, refletindo e revendo atitudes anteriores. Rosimar estava cada vez mais conectada consigo mesma.

Esses diferentes momentos do processo da Rosimar ficaram marcados na sua produção em SoulCollage®. Nos seus primeiros cartões as imagens e o tratamento dado eram duros, tinham concretude e aridez. Em outro momento, ainda selecionando imagens de força, pediu “autorização” para compor com elementos mais fluidos e abstratos um fundo para avivar seu néter.

 

Gradualmente, ela passou a trabalhar com um repertório mais amplo de imagens, expressando alegria, leveza e liberdade, e a tratar as imagens de maneira mais cuidadosa. O seu recorte ficou minuscioso, aprofundando até encontrar a essência da imagem. Passou a dar mais atenção pra relação figura/fundo e a compor em camadas.

 

Rosimar ficou mais apropriada do método e identificada com os cartões. Um deles foi muito forte no seu processo, falou de “alguém que vive a infância com alegria, leveza e liberdade; alguém que está em um lugar com mil borboletas ao redor”. Ela falou que não vê mais borboletas hoje em dia.

 

Esse cartão foi produzido logo após primeira experiência de saída para inserção cultural, e virou uma referência pra ela. Rosimar o reconheceu como uma imagem perfeita, que seguiu reverberando. A partir dele trabalhamos outras propostas artísticas aprofundando o seu potencial criativo. Bordando por cima da imagem impressa, Rosimar começou contornando as formas, escolheu um tom amarelo dourado e parecia que ia apenas enriquecer e adornar a composição. Foram muitos encontros com esse trabalho. Ela permaneceu bordando intensamente, dedicada, introspectiva enquanto bordava – muito diferente da Rosimar faladeira e reativa que chegou ao grupo. Bordou cegamente por muitos encontros até perceber que estava dando forma a um casulo. Ficou maravilhada com o que viu. Fez conexões com casulos que viu em uma das obras da exposição que visitamos, e com as borboletas da sua infância. Observando o próprio processo, Rosimar disse: “Pra mim realmente foi isso, eu saí do casulo, né?! Eu vivia num casulo. Depois que eu passei a frequentar essa aula eu virei outra pessoa, uma borboleta”.

 

Maria Claudia

Maria Claudia é uma mulher preta de aproximadamente 40 anos. Nasceu na Bahia, no nordeste do Brasil, onde grande parte da população é afrodescendente e as religiões africanas são profundamente inseridas. Ela veio para o Rio de Janeiro em busca de trabalho, com o marido e dois filhos. Eles moram na Vila da Paz, comunidade nos arredores da Tijuquinha – região dominada pelos milicianos e evangélicos de forma autoritária, violenta e arbitrária.

Maria Claudia procurou o Projeto Transborda em um momento de problemas pessoais graves – depressão, baixa autoestima e crise no casamento. No grupo, se sensibilizava com as histórias e ía se nutrindo. Contava com o bordado e o SoulCollage® como formas de expressão. Os primeiros cartões produzidos por ela pareceram pouco identitários, a relação dela no ateliê era superficial e a frequência nos encontros irregular.

 

Em uma inserção cultural, Maria Claudia entrou em contato com o trabalho de Rosana Paulino, artista plástica brasileira, que trata da trajetória da mulher escrava, seu silêncio e sua dor. Ela ficou satisfeita de ver essa história exposta, se identificou verdadeiramente com o conteúdo abordado pela artista.

Depois disso, produziu um cartão de SoulCollage® muito forte, se aprofundou bastante. Sua fala foi enfática e emocionada. Falou de “alguém que mesmo mutilada encontra força para seguir firme, forte, inteira. Que traz marcas que não se apagam, que ficam gravadas para sempre, e dizem a respeito da própria história”.

 

A partir daí, ela se sentiu autorizada a trazer assuntos que por muito tempo foram censurados. Enquanto viveu na Bahia, Maria Claudia frequentava o Candomblé. Desde que veio morar no Rio, por viver em uma comunidade quase toda composta de evangélicos, ela precisou se calar, ocultar a sua história, sua religião e sua ancestralidade.

Desse momento em diante, Maria Claudia passou a produzir trabalhos com conteúdos que resgatavam as suas raízes. Passou a se comprometer mais com as propostas, ser assídua nos encontros e a soar verdadeira nas partilhas com o grupo.

Convidada a se aprofundar em algum tema, ela selecionou um de seus cartões como inspiração para desdobramento plástico. A imagem do cartão escolhido retrata uma mulher vestida com trajes de sua religião. Maria Claudia optou por usar várias impressões do cartão, em cada uma delas bordou formas e cores diferentes, exibindo os detalhes da saia como oferendas preciosas.

 

Honrando sua herança ancestral, ela pôde fortalecer sua identidade e valorizar sua existência. Integrando passado, presente, e podendo assim projetar um futuro.

 

Ao invés da imagem calcada, chata, advinda do choque traumático, a cena simbolizada adquire tridimensionalidade… Conquistar essa nova dimensão equivale a conseguir sair da posição de sobrevivente para voltar à vida. Significa ir da sobre-vida à vida.”

Márcio Seligmann-Silva

Transbordamentos finais

Assim seguimos nesse trabalho de tecituras. Das narrativas poéticas puxamos um fio. Um fio que vai nos conduzindo a lugares antes não visitados. Não traçamos retas com esses fios. Segundo Mario Quintana, este é o caminho mais chato entre dois pontos. Caminhamos poeticamente. E percebemos no processo que não estamos sós. Fios se conectam, se entrelaçam, se cruzam, trazendo, com essas novas tramas que vão surgindo, esperança e força. Como uma grande teia, os encontros vão trazendo possibilidades de novas narrativas. As memórias vão sendo acessadas e narradas. A unidade do grupo vai fortalecendo a singularidade dessas mulheres. Descobrem-se fortes e potentes. Como pensava o filósofo Walter Benjamin, caminhos privilegiados são feitos de desvios, pois cada curva traz uma infinidade de possíveis novos rumos. A surpresa e a sincronicidade são nossas guias.

Todo conhecimento, disse ele, deve conter um mínimo de contra-senso, como os antigos padrões de tapete ou de frisos ornamentais, onde sempre se pode descobrir, nalgum ponto, um desvio insignificante de seu curso normal. Em outras palavras: o decisivo não é o prosseguimento de conhecimento em conhecimento, mas o salto que se dá em cada um deles. É a marca imperceptível da autenticidade que os distingue de todos os objetos em série fabricados segundo um padrão.
Walter Benjamin

Referências bibliográficas

Arendt, H. (2014). A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

Benjamin, W. (1984a). Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação. São Paulo: Summus.

Deleuze, G. (2013). Conversações. São Paulo: Editora 34.

Frost, Seena. Seena’s words. Apostila em pdf.

Ostrower, F. (1977). Criatividade e processos de criação. Petrópolis: Vozes.

Paulino, R. (2011). “Imagens de Sombras”, tese apresentada à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Doutora em Artes Visuais.

Selligmann-Silva, M. (2008). Narrar o Trauma – A Questão dos Testemunhos de Catástrofes Históricas. Psicologia Clínica. Rio de Janeiro. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Centro de Teologia e Ciências Humanas. Departamento de Psicologia, vol. 20.1.


[*] Psicóloga, Maestría en Psicología Clínica, arteterapeuta, arte-educadora, instructora de Meditación Trascendental, psicomotora, formadora del método SoulCollage®. Directora de Espaço Baalaka – Arte y Conciencia. Coordinadora del Proyecto Social Baalaka. Formadora de arteterapeutas desde 2010.

[**] Diseñadora, arte-educadora, arteterapeuta, facilitadora en SoulCollage®, coordinadora del proyecto Baalaka Social. Coordinadora del TransbordaRio, un proyecto social para mujeres que viven en comunidades.

[***] Licenciada en Comunicación Social, arte-educadora, arteterapeuta, facilitadora en SoulCollage®, maestra de niños y adolescentes en el proyecto Baalaka Social. Docente en TransbordaRio, un proyecto social para mujeres que viven en comunidades.

Cómo citar este artículo:

Geraldi, F., Da Silveira, I. y L. Da Silveira (2021). “Transborda. Histórias, bordado e SoulCollage® com mulheres em vulnerabilidade social”, Arteterapia. Proceso Creativo y Transformación, N° 9, pp. 14-21.